Pescar achigãs que vivem em grupo

Pescar achigãs que vivem em grupo

Dificuldades e soluções

Capturar vários achigãs na mesma zona torna-se difícil, quando se apanha um, e especialmente se se liberta de seguida, as hipóteses de capturar um segundo peixe baixam drasticamente. O mesmo acontece quando nos cruzamos com um cardume de achigãs. Será que eles têm forma de comunicar o perigo? Haverá alguma libertação de feromonas que avise os restantes de que aquilo que lhes apresentamos os vai prender e obrigar a uma luta pela sua vida? Há espécies em que já se demonstrou que isso sucede, mas sucederá com os achigãs?

Nas nossas pescarias acontece-nos muitas vezes pescarmos um achigã e depois… Mais nada! Muitas vezes, na mesma zona, só depois de algum tempo é que isso volta a ser possível. Claro que há situações em que se capturam mais exemplares, mas não são muito frequentes.

A resposta às perguntas acima não são fruto de estudos científicos, apenas podemos imaginar o que se passa depois de termos percorrido um longo caminho a estudar a espécie.

Há alguns estudos que vêm corroborar tudo o que concluí há muitos anos sobre este assunto, mas são de marcas de materiais de pesca, não tendo um cariz científico. A verdade é que as marcas têm de se envolver na busca de argumentos para vender e isso acaba por se traduzir em novos conhecimentos aplicáveis às situações de pesca que encontramos, para bem da nossa atividade.

 

Aglomerados e cardumes

Além das pescarias mais comuns em que isso sucede, ou seja, em que os ataques a amostras param, há a considerar a lógica dos cardumes. Os achigãs em cardume têm comportamentos diferentes. Cruzei-me várias vezes com cardumes e poucas vezes consegui mais que uma captura… Fiquei intrigado… Seria possível algum tipo de comunicação de perigo entre os membros do cardume? Eles devem “entender-se” para viajarem em conjuntos, assumindo estratégias de ataque em grupo a cardumes de peixes pasto, mas eles não se agrupam apenas para se alimentarem, há outras motivações, nomeadamente a escolha de um local perfeito por mais de um elemento. Há estruturas e coberturas tão propícias à sua forma de viver que podem sustentar vários achigãs ao mesmo tempo. As condições que se geram no local são suficientes para albergar vários elementos. Por isso fazemos esta distinção entre “meros grupos” que se toleram numa zona de qualidade e cardumes “organizados” que vagueiam em busca de alimento sem se fixarem. Quando uma das nossas amostras cai numa zona habitada por vários elementos, é vulgar que haja um ataque de imediato, mas um segundo ataque é menos provável se voltarmos a lançar a mesma amostra.

Um cardume de achigãs que vagueia por uma massa de água em busca de alimento tem uma “lógica” diferente, mas, ainda assim, pode suceder o mesmo e a nossa estratégia deve ser igual – alterar alguma coisa de modo a que eles vejam coisas diferentes. No entanto, num cardume de achigãs em frenesim alimentar, isto é, quando perseguem um cardume de peixes-pasto, desde que a nossa amostra se pareça com o que atacam poderemos capturar vários, porque não distinguirão a nossa amostra dos seres que engolem repetidamente até se saciarem. Mas esta é uma situação difícil de encontrar nas nossas pescarias.

Quando deixam de atacar, em qualquer das situações, não é porque haja uma comunicação, física ou mesmo química. Não se conhece neste predador de topo esse tipo reação, o que acontece é que eles aprendem e têm memória.

CAJA 1

Uma prova (parte 1)

Em 2003, numa prova do Torneio APPA, com o Manuel Pascoal como parceiro, conseguimos um segundo lugar pescando duas mãos, de sete horas cada, em cima da mesma zona. Não foi a única vez, mas serve para ilustrar o assunto sobre o qual me debruço neste momento. Não percebemos se estávamos em cima de um cardume ou numa zona de passagem, mas as probabilidades apontam para a primeira hipótese, uma vez que estávamos em julho e com condições de tempo estáveis. A zona é propícia à localização de peixes por se tratar de um cabeço submerso junto de um bico primário do braço principal do rio Zêzere, na barragem do Cabril. De facto, após cada captura havia intervalos, mas, em catorze horas capturámos muitas dezenas de achigãs, a grande maioria, diga-se em abono da verdade, não tinha os vinte e sete centímetros que o regulamento exigia, mas, mesmo assim, foram capturados mais peixes que os necessários para levar os cinco à pesagem. Melhorámos o peso várias vezes com a ajuda de uma balança romana, porque eram muito similares. Não se tratava de um cardume de peixes grandes, mas havia suficientes com medida para nos proporcionar a confiança necessária. A questão que se coloca nestes casos é: porque se reduz o ritmo de ataques… Creio que isso tem mais a ver com a forma de aprendizagem dos achigãs…

[LEYENDA CAJA 1: Foi em cima desta estrutura que pescámos durante catorze horas para conseguir um segundo lugar.]

Como aprendem

É através dos seus sentidos que o achigã se relaciona com o meio e, como tal, é com o recurso a eles que aprende. Aprende por associação, por habituação, por reconhecimento espacial e por busca imagética de presas.

A sua aprendizagem por associação pode ser negativa ou positiva. Por exemplo, quando apresentamos uma amostra vermelha e ele é capturado, ele pode associar a cor vermelha à má experiência que teve e recusar essa mesma cor em situações futuras. A sua memória ditará por quanto tempo isso vai suceder. Há casos em que a memória é muito curta, mas nem sempre. Trata-se de seres que têm capacidades diversas e memórias diversas. Outro exemplo é o que sucede quando pescamos de barco e chegamos a um local e ligamos o motor elétrico, lançamos e capturamos. Esse exemplar capturado pode associar negativamente o som o motor elétrico à sua captura e guardar isso na sua memória por algum tempo. Já a aprendizagem por associação positiva é a que, ao contrário, lhe proporciona uma experiência positiva, como seja, conseguir alimento após algum tipo de som, mas já falámos disso quando estudámos o sistema ouvido-linha lateral; nestes casos associará determinados sons a comida, a uma sensação de bem-estar.

Por habituação eles aprendem, por exemplo, que determinados sons fazem parte do seu quotidiano e do seu ruído de fundo constante, não implicando qualquer perigo imediato. Isso pode suceder com o ruído de embarcações que é mais ou menos constante em alguns lagos, com o som de uma determinada corrente ao chocar com estruturas e/ou coberturas, etc.

O reconhecimento espacial é a sua capacidade de saber “onde mora”, ou seja, sabendo quais as marcas estruturais da sua zona de habitação usual. Ele conhecerá um tronco, uma zona de vegetação, uma pedra, etc. que façam parte da sua zona de caça e de desova, por exemplo.

A busca imagética de presas é uma aprendizagem que lhe permite selecionar o que pode comer através da sua aparência. É também o que permite à indústria saber como desenhar uma amostra para que o achigã a veja como presa, quer em textura e padrão de cor quer em som e movimento, e o que nos ajuda a nós a escolher o que usar em cada caso.

 

Tentativa e erro

Não desesperem os meus amigos com estas capacidades do nosso predador… Nós somos mais inteligentes e a indústria associada à sua pesca ajuda-nos a superar a maior parte destes «contratempos» relativos à inteligência dos achigãs. Em primeiro lugar os achigãs têm limitações e muitas, a mais importante é que aprendem por tentativa e erro e isso torna-se um processo lento, depois temos de ter em conta que todos os anos aparecem no mercado amostras com formas que eles nunca viram. Mesmo que se trate de variações de outras que conheçam e que possam até, por associação negativa recusar, qualquer ligeira alteração pode apagar essa lembrança, porque já não é igual, então, terá de arriscar e fazer mais uma tentativa a ver se dá erro ou não. O que podemos e devemos sempre tentar é mudar qualquer coisa na nossa apresentação, a velocidade, por exemplo, ou trocarmos mesmo de amostra, de cor ou mesmo de tipo. É na mudança que nos devemos apoiar para fazer face a estas situações.

CAJA 2

Uma prova (parte 2)

Seguindo a história das nossas duas jornadas de pesca em competição embarcada, o que fizemos foi precisamente o que se recomenda e mais algumas coisas… Pescar de barco permite-nos ter várias canas montadas para técnicas diferentes e esse foi um fator-chave. Usámos várias técnicas, mas com amostras diferentes, além disso, mudávamos a apresentação, a cor e o tipo de amostra com muita frequência. Só assim nos seria possível continuar a capturar com mais regularidade. Outra coisa que fazíamos era deixar derivar a embarcação por cima do cabeço e também fazer alguns lançamentos para mais longe, deixando de pescar na vertical por alguns minutos.

A técnica que mais usámos foi o “drop-shot”, mas também o “doodling”, o Texas leve e mesmo o “split-shot”. Dávamos mais importância à pesca vertical, mas variávamos consoante as necessidades e as dificuldades impostas numa situação deste tipo. Também experimentámos outro tipo de amostras, mas sem sucesso.

[LEYENDA CAJA 2: Manuel Pascoal com uma das capturas desses dias de pesca.]

Concluindo… E resumindo

Quando chegar a um local para pescar e capturar um peixe, tente apanhar mais, se não conseguir com a mesma amostra, então é hora de mudar. Eu sei que há muita “preguiça” nestas mudanças, até porque acreditamos no que estamos a usar… Mas vale a pena experimentar. Não se esqueça que pode estar numa zona habitada por vários achigãs ou pode mesmo estar na presença de um cardume. A situação ditará se funciona ou não, mas vale a pena tentar, porque eles não “avisam” os outros elementos, mas todos estão a aprender em conjunto e isso pode anular outras capturas.

DESTAQUES

É através dos sentidos que o achigã se relaciona com o meio. Aprende por associação, por habituação, por reconhecimento espacial e por busca imagética de presas.

Os achigãs em cardume têm comportamentos diferentes. Cruzei-me várias vezes com cardumes e poucas vezes consegui mais que uma captura… Fiquei intrigado…

Por habituação eles aprendem, por exemplo, que determinados sons fazem parte do seu quotidiano e do seu ruído de fundo constante, não implicando qualquer perigo imediato

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LEYENDAS

1 – Uma zona como a que se vê no centro mantém um certo número de peixes que nem sempre funcionarão como um todo – como um cardume.
2 – Os “swimmbaits” são amostras realísticas menos na textura, podendo, assim, proporcionar uma aprendizagem por associação negativa.
3 – Este achigã pode passar a recusar amostras desta cor, entre muitas outras coisas, devido à sua capacidade de aprendizagem associativa.
4 – Mudar de amostra, de cor, de velocidade ou de técnica é a melhor forma de reativar peixes desinteressados.
5 – Mostrar amostras diferentes, ainda que nas mesmas formas de empatar, é outro dos modos de capturar mais peixes na mesma zona.
6 – Os “wakebaits” foram criados já este século com o intuito de sempre: mostrar coisas novas aos achigãs para facilitar a sua captura.

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